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Manejo
Micronutrientes na soja: do diagnóstico ao posicionamento foliar

Micronutrientes na soja: do diagnóstico ao posicionamento foliar

O que resultados recentes do Cerrado ensinam sobre boro, cobre e o uso responsável da nutrição foliar em lavouras de alto potencial

Na rotina de campo, a discussão sobre micronutrientes costuma aparecer quando a lavoura perde vigor, a análise foliar revela um desequilíbrio ou surge a expectativa de elevar o teto produtivo com mais uma aplicação. A pesquisa recente ajuda a organizar essa conversa. Na soja, a resposta não depende de uma lista fixa de produtos, mas da combinação entre disponibilidade no solo, condição da planta, fonte, dose, época e ambiente de produção.

Esse é o principal recado do artigo técnico publicado por Zavaschi e colaboradores na edição número 31 de Informações Agronômicas Nutrição de Plantas. Os autores reuniram dados de solo, lavouras de alto rendimento e experimentos conduzidos em Jataí, Goiás, e Uberlândia, Minas Gerais. Para quem toma decisão na fazenda, o valor do trabalho está menos em copiar uma tabela e mais em entender onde a aplicação foliar tem maior chance de entregar retorno.

Micronutrientes voltaram ao centro da decisão

Cultivares modernas produzem mais e, por consequência, extraem e exportam mais nutrientes. Ao mesmo tempo, o uso de formulações NPK mais concentradas reduziu o aporte incidental de micronutrientes em muitos sistemas. O plantio direto e a calagem superficial também alteram a dinâmica dos elementos metálicos, como cobre, manganês, zinco, ferro e níquel. Com o aumento do pH, parte desses nutrientes pode se tornar menos disponível, mesmo em solos que possuem reserva total elevada.

Isso explica por que tanto solos arenosos quanto argilosos merecem atenção. Nos arenosos, o problema mais frequente é a baixa reserva e a maior suscetibilidade a perdas. Nos argilosos, a retenção pode reduzir temporariamente a presença de nutrientes na solução do solo. Em ambos os casos, uma aplicação foliar pode complementar o manejo, mas não substitui a construção da fertilidade nem corrige limitações estruturais do perfil.

O diagnóstico precisa vir antes da pulverização

A análise de solo e a diagnose foliar respondem a perguntas diferentes. A primeira estima a oferta potencial de nutrientes e ajuda a planejar a correção. A segunda mostra como a planta integrou solo, clima, raízes e manejo. Usadas em conjunto, elas reduzem a chance de aplicar um nutriente que já está adequado ou de tentar resolver via folha uma deficiência que exige correção no solo.

No sistema soja e milho, o artigo recomenda amostragem estratificada após a segunda safra, preferencialmente na entrelinha da cultura anterior. Na camada de 0 a 20 centímetros, a solicitação deve incluir rotina, alumínio, enxofre e micronutrientes. Nas camadas de 20 a 40 e 40 a 60 centímetros, rotina, alumínio e enxofre ajudam a identificar impedimentos químicos ao aprofundamento das raízes.

Na soja, a amostragem foliar de referência é realizada no florescimento, coletando o terceiro ou quarto trifólio completamente desenvolvido, com pecíolo, em 30 a 40 plantas por talhão. Essa análise funciona principalmente como auditoria do programa. Em culturas anuais, o resultado nem sempre chega a tempo de corrigir a safra em curso, mas é valioso para reconhecer recorrências e ajustar o manejo do ciclo seguinte.

Níveis críticos devem ser lidos com método e contexto

Os manuais regionais continuam sendo a base para interpretar a análise de solo. O estudo, porém, apresenta sinais de que alguns limites usados no Cerrado podem não representar integralmente os ambientes atuais de alta produtividade. Em um banco de dados de lavouras comerciais de Mato Grosso, os autores relacionaram teores de micronutrientes na camada de 0 a 20 centímetros com a produtividade relativa da soja e estimaram níveis associados a 90 por cento da produtividade máxima.

Nutriente e extrator Referência do Cerrado Estimativa no banco de Mato Grosso Intervalo de confiança de 95 por cento
B em água quente 0,5 mg dm⁻³ 0,7 mg dm⁻³ 0,58 a 0,74 mg dm⁻³
Cu em DTPA 0,8 mg dm⁻³ 1,1 mg dm⁻³ 0,99 a 1,30 mg dm⁻³
Mn em DTPA 5,0 mg dm⁻³ 28,3 mg dm⁻³ 22,08 a 36,40 mg dm⁻³
Zn em DTPA 1,2 mg dm⁻³ 1,4 mg dm⁻³ 1,11 a 1,69 mg dm⁻³

A tabela não autoriza a troca automática dos níveis oficiais por novos valores. As estimativas vieram de um conjunto específico de 203 amostras para boro e 195 para os demais nutrientes, em uma safra e região determinadas. O resultado mais importante é a necessidade de ampliar a calibração regional, sempre respeitando o extrator, a profundidade de amostragem, a textura e o histórico do talhão.

A mesma cautela vale para os dados de áreas campeãs do Comitê Estratégico Soja Brasil. Os teores médios encontrados nesses ambientes descrevem lavouras de alto desempenho, mas não são metas universais de adubação. Produtividade também depende de cultivar, disponibilidade hídrica, sanidade, estrutura do solo e qualidade de execução.

O boro exige manejo de sistema

O boro merece atenção especial porque se movimenta no solo e possui uma faixa relativamente estreita entre deficiência e toxicidade. A estratégia de fonte e época, portanto, importa tanto quanto a dose. Fontes solúveis, como ácido bórico e octaborato de sódio, disponibilizam o nutriente rapidamente. Fontes de liberação intermediária, como a ulexita, podem prolongar o fornecimento.

Em Jataí, em solo com 0,3 mg dm⁻³ de B na camada de 0 a 20 centímetros, a associação de 0,5 kg ha⁻¹ de B em fonte solúvel na dessecação com 2,0 kg ha⁻¹ em fonte granulada no pré-plantio elevou a produtividade em relação ao controle. O tratamento com ácido bórico e complexo de micronutrientes alcançou 77,3 sc ha⁻¹, enquanto o controle produziu 63,1 sc ha⁻¹. Em Uberlândia, a combinação de 0,5 kg ha⁻¹ de B via octaborato com 2,5 kg ha⁻¹ via ulexita também atingiu 77,3 sc ha⁻¹, diante de 69,3 sc ha⁻¹ no controle.

Os autores propõem, para o sistema soja e milho segunda safra e em solos com menos de 0,8 mg dm⁻³ de B, associar uma fonte granulada antes da soja a 0,5 kg ha⁻¹ de B em fonte solúvel na dessecação antes de cada cultura. As doses granuladas sugeridas aumentam de acordo com a textura. Essa proposta deve ser tratada como referência para ajuste técnico, não como dose padrão. Os ensaios foram conduzidos em solos com teores elevados de argila, e a adoção de doses altas em solos arenosos aumenta o risco de lixiviação e fitotoxicidade.

O cobre apresentou a resposta foliar mais consistente

Nos oito experimentos com soja realizados nas safras 2023/2024 e 2024/2025, foram avaliadas fontes quelatizadas de cobre, boro, zinco, manganês, molibdênio e níquel. Entre esses nutrientes, o cobre apresentou a resposta produtiva mais consistente.

Na safra 2023/2024, doses totais de 0 a 120 g ha⁻¹ de Cu foram parceladas igualmente em V4, R1 e R5.1. Em Uberlândia, o modelo indicou aumento até 80 g ha⁻¹ de Cu e um platô de 91,2 sc ha⁻¹. Em Jataí, a resposta foi quadrática, com máxima estimada de 60,1 sc ha⁻¹ na dose total de 72 g ha⁻¹. Em ambos os locais, a faixa de maior resposta ficou entre 70 e 80 g ha⁻¹ de Cu no ciclo.

O parcelamento é um detalhe agronômico importante. O cobre possui margem estreita entre nutrição e fitotoxicidade quando aplicado em concentrações elevadas na folha. Dividir a dose reduz o pico de concentração, distribui o nutriente em fases distintas e facilita o ajuste às condições da lavoura. O resultado experimental, contudo, não deve ser convertido diretamente em dose de produto comercial. A concentração de Cu, a formulação, o volume de calda, a compatibilidade da mistura e as condições ambientais precisam ser considerados.

O estudo também relaciona o cobre à síntese de lignina e menciona possível efeito fungistático. Isso ajuda a explicar uma resposta fisiológica, mas não transforma o fertilizante foliar em fungicida nem comprova controle de doenças. Sanidade deve continuar sendo conduzida com monitoramento e produtos registrados para cada alvo.

Ausência de resposta não significa ausência de função

Nos mesmos ensaios, boro, manganês, níquel e zinco não apresentaram resposta significativa de produtividade. Esse resultado não diminui a importância fisiológica desses elementos. Ele indica que, nas combinações de ambiente, cultivar e disponibilidade no solo avaliadas, não havia limitação suficiente para que a aplicação foliar se traduzisse em mais grãos.

Esse ponto evita um erro recorrente: transformar a função bioquímica de um nutriente em garantia de resposta agronômica. Manganês participa da fotossíntese e de sistemas enzimáticos; zinco atua em enzimas e regulação do crescimento; molibdênio, cobalto e níquel se relacionam à fixação biológica do nitrogênio e ao metabolismo do N. Ainda assim, o retorno da aplicação depende de necessidade real, fonte, dose, época e capacidade de absorção.

Cobalto, molibdênio e níquel podem ser posicionados no início do desenvolvimento quando não foram fornecidos no tratamento de sementes ou no sulco. Repetir a aplicação por rotina, sem conferir o que já foi entregue e sem avaliar a inoculação, aumenta custo e pode criar antagonismos ou risco de excesso.

Como transformar a evidência em um programa de campo

A tabela de recomendação publicada pelos autores foi construída para soja com expectativa superior a 80 sc ha⁻¹. Ela reúne doses de vários nutrientes em V4/V5, V8/R1 e R4/R5. É uma proposta orientativa, ajustável pelo responsável técnico. O próprio artigo informa que as aplicações foliares de boro, magnésio e fósforo apresentadas na tabela não foram discutidas experimentalmente no trabalho. Por isso, a melhor forma de usar a proposta é como roteiro de decisão, não como pacote fechado.

Momento Pergunta técnica Conduta sugerida
Após a segunda safra O perfil possui limitação química ou baixa disponibilidade de micronutrientes? Amostrar 0 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 cm e conferir extratores, textura, pH e matéria orgânica.
Pré-plantio e dessecação O boro no solo e a textura justificam aporte via solo? Escolher fonte e dose pelo risco de perda ou toxicidade e pelo sistema soja milho, não apenas pela soja isolada.
V4 a V5 Co, Mo e Ni já foram entregues e há indicação para Cu, Mn ou Zn? Evitar duplicidade. Posicionar somente o que o diagnóstico, o histórico e a expectativa de produtividade sustentarem.
V8 a R1 A lavoura mantém potencial e há condição ambiental para boa absorção? Reavaliar o segundo parcelamento, priorizando nutrientes com limitação provável e aplicação tecnicamente segura.
R1 a R2 O programa nutricional funcionou? Realizar diagnose foliar padronizada e registrar talhão, cultivar, data, estádio, chuva e operações anteriores.
R4 a R5 Há justificativa para a terceira fração de Cu ou outro complemento? Manter apenas aplicações sustentadas pelo diagnóstico e pela condição da lavoura. Evitar concentração elevada e misturas de compatibilidade incerta.

Cinco cuidados que melhoram a chance de resposta

  • Trabalhe com nutriente em gramas por hectare. Comparar apenas litros ou quilos de produtos diferentes esconde diferenças de concentração e formulação.
  • Confirme o que já foi aplicado na semente, no sulco e no solo. A soma das entradas evita duplicidade e permite avaliar a dose total no ciclo.
  • Use volume de calda, gotas e condições ambientais que favoreçam cobertura e absorção. Planta sob estresse hídrico ou térmico severo responde pior e apresenta maior risco de injúria.
  • Faça faixas comparativas na própria fazenda. Testemunhas lado a lado, com colheita separada, ajudam a distinguir resposta real de variação espacial do talhão.
  • Registre a condição do talhão. Resultado sem solo, cultivar, estádio, chuva, mistura e produtividade final dificilmente melhora a decisão da safra seguinte.

O manejo foliar começa no diagnóstico

A principal contribuição da pesquisa não é indicar que toda lavoura de alta produtividade deve receber o mesmo conjunto de micronutrientes. O trabalho mostra que respostas consistentes aparecem quando existe limitação, quando a fonte e a época fazem sentido e quando o ambiente permite que a planta aproveite o nutriente.

Para a soja, o cobre merece atenção por ter apresentado resposta em dois ambientes, com dose total parcelada ao longo do ciclo. O boro deve ser tratado como parte do manejo de sistema, combinando análise de solo, textura, solubilidade da fonte e risco de toxicidade. Para os demais micronutrientes, a decisão ganha qualidade quando parte do histórico do talhão, da diagnose e de validações locais.

Na Austera, esse é o princípio que orienta a recomendação: usar a pesquisa para formular hipóteses, usar o diagnóstico para escolher onde intervir e usar os dados da fazenda para confirmar se o investimento entregou retorno. Em nutrição foliar, a aplicação mais eficiente é aquela que resolve uma limitação real e pode ser medida.

Fonte principal

ZAVASCHI, E. et al. Manejo de micronutrientes nas culturas da soja e do milho. Informações Agronômicas Nutrição de Plantas, n. 31, setembro de 2026, p. 5 a 23.

Referências de interpretação citadas no artigo base incluem o manual Cerrado Correção do Solo e Adubação, o Boletim 100 do Instituto Agronômico, o Manual de Adubação e Calagem do Paraná e Nutrição e Adubação de Soja Visando Altas Produtividades.

Auster
Auster - Agente agronômico da Austera Assessoria Agrícola
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